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domingo, 27 de abril de 2025

A Determinação da Identidade Judaica pela Linha Materna: Fontes na Torá Escrita, Torá Oral e Implicações Contemporâneas:

Ilustração de uma mãe judia e seu filho judeu

A determinação da identidade judaica exclusivamente pela linhagem materna é uma norma bem estabelecida no judaísmo tradicional, embora não esteja explicitamente formulada na Torá Escrita (Pentateuco). Essa norma é fundamentada em interpretações rabínicas que integram a Torá Escrita e a Torá Oral, e encontra expressão mais desenvolvida no Talmude. A seguir, serão apresentados os fundamentos textuais, a evolução desta norma e sua aplicação nas diferentes correntes do judaísmo contemporâneo.

1. Base na Torá Escrita:

Embora a Torá (os cinco livros de Moisés) não declare explicitamente que a identidade judaica é determinada pela mãe, certas passagens são interpretadas como apontando nesta direção. Um dos principais textos é encontrado em Deuteronômio 7:3-4, onde se lê:

“E não te aparentarás com elas [as nações cananeias]: não darás tua filha a seu filho, nem tomarás sua filha para teu filho. Pois ele afastará teu filho de seguir a Mim, e eles servirão outros deuses…” (Deuteronômio 7:3-4)

A leitura rabínica observa que o versículo trata de casamentos mistos e suas consequências religiosas. A expressão “afastará teu filho” é interpretada como se referindo à criança nascida de uma união entre um israelita e uma mulher estrangeira. O fato de o texto referir-se ao filho do casal como “teu filho” (no caso de a mãe ser estrangeira) sugere, segundo a tradição rabínica, que essa criança não será reconhecida como plenamente israelita, pois será desviada para práticas idólatras. Assim, o vínculo do filho com a identidade de Israel depende fundamentalmente da condição da mãe (Rashi, ad loc.; Sifrei Devarim 43).

2. Formulação na Torá Oral e no Talmude:

A concepção de que a identidade judaica é transmitida pela mãe é explicitada na Torá Oral, que foi posteriormente codificada no Talmude. No tratado Kidushin 68b, os sábios discutem as implicações dos casamentos mistos e afirmam:

“O filho de tua filha é chamado 'teu filho', mas o filho de teu filho (com uma mulher não judia) não é chamado 'teu filho'.” (Kidushin 68b)

A partir desta formulação, conclui-se que a descendência judaica segue a linha materna: um filho de mãe judia é judeu, independentemente da origem do pai; entretanto, o filho de um pai judeu com uma mãe não judia não é considerado judeu de nascimento.

Essa regra foi mais tarde formalizada nas obras haláchicas, como no Shulchan Aruch (Yoreh De'ah 268:6), reafirmando que a conversão é necessária para filhos de mães não judias, ainda que o pai seja judeu (Carvalho, 2017).

3. Aplicação nas Correntes Judaicas Contemporâneas:

Judaísmo Ortodoxo:
O judaísmo ortodoxo mantém firmemente a tradição talmúdica. Para um indivíduo ser considerado judeu, sua mãe deve ser judia por nascimento ou ter passado por uma conversão formal válida, conforme a Halachá (Bleich, 1991). A descendência paterna não é suficiente.

Judaísmo Conservador:
O movimento conservador também reconhece a linhagem materna como a via principal para a transmissão da identidade judaica. Entretanto, em resposta a realidades sociológicas contemporâneas, algumas comunidades conservadoras aceitam filhos de pai judeu e mãe não judia como judeus, se forem educados no judaísmo e se comprometerem formalmente com a tradição judaica (Golinkin, 2001).

Judaísmo Reformista:
Desde 1983, o movimento reformista nos Estados Unidos (Union for Reform Judaism) passou a aceitar a linhagem paterna como igualmente válida, desde que a criança receba uma educação judaica e manifeste identificação com o povo judeu (Winer, 1983). Isso representou uma mudança significativa em relação à tradição rabínica clássica.

Judaísmo Reconstrucionista:
Este movimento segue uma abordagem similar à reformista, aceitando tanto a linhagem materna quanto paterna sob as mesmas condições de educação e compromisso (Eisenstein, 1986).

4. Considerações Finais:

A determinação da identidade judaica pela mãe é, portanto, uma construção baseada na leitura interpretativa da Torá Escrita e formalizada na tradição oral rabínica. Embora esta norma continue sendo normativa no judaísmo ortodoxo e em setores do judaísmo conservador, há movimentos contemporâneos que vêm reexaminando esta questão em função das mudanças sociais e demográficas.

Essas diferenças, por sua vez, criam implicações práticas importantes no reconhecimento da identidade judaica entre as diversas comunidades e, especialmente, em temas como direito de imigração a Israel (Lei do Retorno) e aceitação em comunidades tradicionais (Bleich, 1991; Schiffman, 1991).


Referências Bibliográficas

  • Bleich, J. David. Contemporary Halakhic Problems. Vol. 3. New York: KTAV Publishing House, 1991.

  • Carvalho, Aharon S. Elementos de Halachá Contemporânea. São Paulo: Editora Sefer, 2017.

  • Eisenstein, Ira. Judaism Under Freedom: Essays in Jewish Philosophy. Reconstructionist Press, 1986.

  • Golinkin, David. Halakhic Responses to Contemporary Issues. Schechter Institute of Jewish Studies, 2001.

  • Schiffman, Lawrence H. From Text to Tradition: A History of Second Temple and Rabbinic Judaism. New York: Ktav, 1991.

  • Winer, Alexander M. The Status of Children of Mixed Marriages: A Reform Perspective. Central Conference of American Rabbis, 1983.

  • Rashi (Rabbi Shlomo Yitzhaki). Comentário sobre a Torá, Deuteronômio 7:4.

  • Sifrei Devarim, edição clássica da Torá Oral.

  • Talmud Bavli, Trato Kidushin 68b.

  • Shulchan Aruch, Yoreh De'ah 268:6.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

 O Jesus Histórico: Uma Investigação Acadêmica.

Imagem ilustrativa do Jesus Histórico.

Resumo:

Este artigo aborda a figura de Jesus de Nazaré sob a perspectiva da historiografia crítica, para compreender o homem histórico dissociado das formulações teológicas desenvolvidas posteriormente. A pesquisa parte da análise das fontes primárias e secundárias disponíveis, contextualiza a vida de Jesus na Palestina do século I e apresenta as principais correntes interpretativas na academia. A proposta não é invalidar o Cristo da fé, mas enriquecer o entendimento sobre o impacto histórico da figura de Jesus.

Palavras-chave: Jesus histórico; historiografia; cristianismo primitivo; crítica textual; Palestina romana.


1. Introdução:

A figura de Jesus de Nazaré é uma das mais influentes da história da humanidade. Sua importância transcende a esfera religiosa e alcança dimensões históricas, culturais e sociais. A partir do século XIX, iniciou-se na academia uma investigação voltada ao chamado “Jesus histórico” — o homem do século I, em seu contexto político e cultural, distinto da construção teológica posterior. A presente análise busca discutir os fundamentos historiográficos que sustentam essa busca, avaliando as fontes disponíveis e os debates em torno da reconstrução histórica de sua vida.


2. Fontes históricas sobre Jesus:

Os evangelhos canônicos são as principais fontes sobre a vida de Jesus, embora sejam documentos teológicos e não biografias nos moldes modernos (MEIER, 2001). Escritos entre 70 e 100 d.C., eles contêm elementos históricos que, segundo a crítica, podem ser identificados por meio de critérios específicos.

Fontes extrabíblicas, embora escassas, também corroboram a existência de Jesus. Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas (Livro 18, cap. 3), refere-se a Jesus em duas passagens. A autenticidade do Testimonium Flavianum é debatida, mas estudiosos como John P. Meier (2001) defendem a existência de um núcleo histórico. O historiador romano Tácito, em Anais (XV, 44), menciona a execução de “Christus” sob Pilatos, oferecendo uma confirmação independente da tradição cristã.

3. Contexto Sociopolítico da Palestina no Século I.

A Palestina do século I era uma sociedade complexa, marcada pela dominação romana e por tensões internas no judaísmo (HORSLEY, 1993). A presença romana era sentida tanto na cobrança de tributos quanto na administração direta da Judeia. Vários grupos judaicos coexistiam, como fariseus, saduceus, essênios e zelotes, cada um com sua visão escatológica.

Nesse ambiente, Jesus surge como um pregador itinerante da Galileia. Sua mensagem sobre o Reino de Deus, suas parábolas e seus atos de cura foram interpretados por muitos como sinais messiânicos. A entrada triunfal em Jerusalém e a purificação do Templo contribuíram para sua execução como subversivo político, prática comum na repressão romana (SANDERS, 1995).


4. Características do Jesus Histórico:

A historiografia moderna utiliza critérios como a múltipla atestação, o critério da dessemelhança e o critério da coerência para isolar possíveis ditos e feitos autênticos de Jesus (THEISSEN & MERZ, 1998). A maioria dos estudiosos concorda que Jesus foi batizado por João Batista, teve discípulos, realizou curas e foi crucificado.

Sua pregação era centrada na iminência do Reino de Deus, o que o insere na tradição dos profetas escatológicos judeus. Ele se distanciava das normas rituais rígidas e aproximava-se dos marginalizados, o que o colocava em conflito com setores religiosos e políticos de sua época (DUNN, 2003).


5. Correntes de Interpretação:

A busca pelo Jesus histórico teve várias fases. A Primeira Busca (século XIX) via Jesus como um mestre moral racionalista (STRAUSS, 1835). A Segunda Busca (meados do século XX), com nomes como Bultmann e Käsemann, enfatizou a crítica das fontes. A Terceira Busca, iniciada a partir da década de 1980, valoriza o contexto judaico do século I (WRIGHT, 1996).

Alguns autores o interpretam como profeta apocalíptico (EHRMAN, 2012), outros como um sábio do tipo cínico (CROSSAN, 1991), ou um reformador social. Essas visões, embora divergentes, buscam situar Jesus no espectro da diversidade religiosa e política do judaísmo do Segundo Templo.

6. Implicações Historiográficas e Teológicas:

O estudo do Jesus histórico impacta diretamente a compreensão das origens do cristianismo e da relação entre fé e história. Para a teologia, ele representa um desafio hermenêutico: como conciliar a fé no Cristo ressurreto com a figura histórica do pregador galileu? Para a historiografia, ele é um caso exemplar de como mitos e tradições se desenvolvem a partir de uma figura real (CARR, 2005).


7. Conclusão:

A busca pelo Jesus histórico não visa negar a fé, mas oferecer uma compreensão mais profunda e fundamentada da figura que originou o cristianismo. A investigação crítica permite resgatar elementos do contexto original de sua vida e obra, contribuindo para um diálogo mais rico entre história e religião. Jesus de Nazaré foi, indiscutivelmente, uma figura histórica de grande impacto — cujo legado permanece sendo estudado, debatido e reinterpretado até os dias atuais.


Referências Bibliográficas

CARR, David M. Writing on the Tablet of the Heart: Origins of Scripture and Literature. Oxford: Oxford University Press, 2005.

CROSSAN, John Dominic. The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991.

DUNN, James D. G. Jesus Remembered. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

EHRMAN, Bart D. Did Jesus Exist? The Historical Argument for Jesus of Nazareth. New York: HarperOne, 2012.

HORSLEY, Richard A. Jesus and the Spiral of Violence: Popular Jewish Resistance in Roman Palestine. San Francisco: Harper & Row, 1993.

MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. Volume 1: The Roots of the Problem and the Person. New York: Doubleday, 2001.

SANDERS, E. P. The Historical Figure of Jesus. London: Penguin, 1995.

STRAUSS, David Friedrich. The Life of Jesus Critically Examined. Londres: SCM Press, 1835.

THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. The Historical Jesus: A Comprehensive Guide. Minneapolis: Fortress Press, 1998.

WRIGHT, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Entre a Soberania Divina e a Responsabilidade Humana — Um Panorama das Doutrinas Calvinista e Arminiana:

PASTORES DEBATENDO

                                                    

Ao longo dos séculos, a fé cristã tem sido moldada por diversas interpretações teológicas que buscam compreender o relacionamento entre Deus e o ser humano. Dentre os debates mais intensos e duradouros, destaca-se o confronto entre o Calvinismo e o Arminianismo — duas correntes que, embora partam da mesma Escritura, seguem caminhos distintos na interpretação do plano divino de salvação.

De um lado, o Calvinismo, com raízes na Reforma protestante e nas ideias de João Calvino, defende a soberania absoluta de Deus, especialmente no que diz respeito à eleição e predestinação. Para o calvinista, Deus escolhe, de maneira livre e graciosa, aqueles que serão salvos — um ato que independe das ações humanas.

Do outro, o Arminianismo, influenciado por Jacobus Arminius, enfatiza o papel do livre-arbítrio humano na resposta ao chamado de Deus. Segundo essa visão, embora a salvação seja iniciada pela graça divina, o ser humano tem a liberdade de aceitá-la ou rejeitá-la, mantendo sua responsabilidade diante do Criador.

Mais do que simples divergências doutrinárias, esses dois sistemas representam modos distintos de entender o mistério da graça, da justiça e da liberdade. O objetivo não é encontrar um vencedor nessa discussão, mas valorizar o diálogo teológico que nos leva a conhecer mais profundamente o caráter de Deus e a beleza do evangelho.

Doutrinas Calvinista e Arminiana:

A história da teologia cristã é marcada por tentativas de sistematizar, interpretar e defender a revelação de Deus conforme expressa nas Escrituras. Entre os diversos debates que permearam a tradição protestante, poucos foram tão influentes e persistentes quanto a discussão entre Calvinismo e Arminianismo. Essas duas correntes teológicas se debruçam sobre uma questão central à fé cristã: qual é o papel de Deus e qual é o papel do ser humano na salvação?

O Calvinismo, tradicionalmente associado ao reformador francês João Calvino (1509–1564), representa uma abordagem teológica profundamente enraizada na soberania absoluta de Deus. Dentro dessa tradição, destaca-se a doutrina da predestinação incondicional, segundo a qual Deus, antes da fundação do mundo, escolheu livre e graciosamente aqueles que seriam salvos, não com base em méritos humanos ou presciência de fé, mas conforme o Seu próprio conselho soberano. Essa perspectiva entende que a graça salvadora é eficaz e irresistível, sendo aplicada infalivelmente àqueles que Deus elegeu.

Em contraposição, o Arminianismo surge como resposta a certas implicações do pensamento calvinista. Desenvolvido por Jacobus Arminius (1560–1609) e sistematizado por seus seguidores nos chamados Cinco Artigos da Remonstrância (1610), o Arminianismo enfatiza a responsabilidade moral do ser humano e a possibilidade real de escolha diante da oferta da salvação. Embora reconheça a necessidade da graça preveniente para capacitar o ser humano a responder a Deus, o Arminianismo sustenta que essa graça pode ser resistida, e que a eleição divina se baseia na presciência da fé individual.

O embate entre essas visões não é meramente acadêmico, mas pastoral, litúrgico e espiritual, influenciando a pregação, a oração, a evangelização e a compreensão da própria identidade cristã. Ambas as correntes afirmam a autoridade das Escrituras, a centralidade de Cristo na salvação e a necessidade da graça divina, mas divergem quanto à mecânica dessa salvação — especialmente no que se refere à liberdade humana e à iniciativa divina.

A presente análise visa traçar um panorama introdutório dessas duas tradições teológicas, abordando suas origens históricas, seus principais pontos doutrinários, bem como as implicações práticas e espirituais que decorrem de cada sistema. Longe de buscar um veredito final, pretende-se aqui oferecer um espaço de diálogo e compreensão, reconhecendo que tanto calvinistas quanto arminianos buscam, em última instância, exaltar a glória de Deus e proclamar a suficiência da obra redentora de Cristo.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

A mulher FLAGRADA em ADULTÉRIO:

O relato de Jesus com a mulher flagrada em adultério é uma das mais célebres histórias de Jesus na Bíblia. Embora tão popular, o relato se baseia em apenas uma passagem do Novo Testamento, está em João 7:53-8:12, e nem mesmo ali parece fazer parte do contexto original.

Jesus, a mulher acusada de adultério e os acusadores

O quadro da história (ou seria: estória?) é familiar. Jesus está ensinando no Templo, e um grupo de escribas e fariseus aproxima-se dele, trazendo consigo uma mulher “que fora pega em flagrante adultério”. Eles a trazem à presença de Jesus porque querem colocá-lo à prova. A Torah (chamada de Lei de Moisés e/ou Lei de Deus) prescreve que uma mulher dessas seja apedrejada até a morte (é o que dizem a Jesus); mas eles querem saber o que ele tem a dizer sobre o caso. Devem apedrejá-la ou mostrar misericórdia para com a mulher? Naturalmente, trata-se de uma armadilha. Se Jesus lhes disser para libertar a mulher, será acusado de violar a Lei de Deus; se lhes disser para apedrejá-la, será acusado de negligência para com seus próprios ensinamentos de amor, misericórdia e perdão.
Jesus cala-se, não responde imediatamente. Ele simplesmente abaixa-se para escrever na areia (dependendo da versão: terra ou chão). Quando eles dão continuidade a seus questionamentos, Jesus lhes diz: “Aquele que não tem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. E retorna a escrever na areia, enquanto aqueles que trouxeram a mulher começam a sair, um por um, até que ninguém restou, além da mulher. Levantando os olhos, Jesus diz: “Mulher, onde estão todos? Ninguém te condenou?” Ao que ela responde: “Ninguém, senhor”. Jesus responde: “Também eu não te condeno. Vai e não peques mais”.
É uma “história” brilhante, cheia de sentimentos e com uma guinada engenhosa na qual Jesus usa sua inteligência para se livrar da armadilha. Obviamente, para um leitor atento, a história levanta várias perguntas. Se essa mulher foi pega em flagrante adultério, onde está o homem com quem ela adulterou? Ambos (e não somente a mulher) devem ser apedrejados, conforme a Lei de Moisés (Levítico 20:10). E mais, o que Jesus escreveu na areia exatamente? De acordo com alguns intérpretes, ele escrevia os pecados dos acusadores, que, ao verem seus próprios pecados ali escritos, ficaram completamente constrangidos. Mas, mesmo que Jesus tenha ensinado uma mensagem de amor, ele realmente achava que a Lei de Deus dada por Moisés perdeu o valor e que não precisava mais ser obedecida? Pensava ele que os pecados não deviam mais ser punidos?

Apesar de a história ser brilhante e cativante, ela levanta outro enorme problema. Ao que tudo indica, ela não é parte original do Evangelho de João. Aliás, não é parte original de Evangelho algum. Trata-se de um acréscimo posterior. Como se sabe disso? A verdade é que pesquisadores do mundo todo que estudam a tradição manuscrita não têm dúvidas a este respeito! Como chegaram a esta conclusão? Analisando, obviamente, alguns fatos: a história não se encontra nos mais antigos e melhores manuscritos do Evangelho de João; seu estilo de escrita é, em tudo, diferente do que vemos no Evangelho de João (inclusive os relatos que vêm antes e depois); inclui-se um enorme número de frases e termos que são, por outro lado, estranhos ao Evangelho de João. Concluindo assim, com toda certeza, que essa passagem bíblica não faz parte originalmente do Evangelho de João. E isso tem deixado os leitores num dilema: se essa história não fazia parte originalmente do Evangelho de João, pode ser considerada parte da Bíblia? Um texto “inspirado” por Deus? Com toda certeza, nem todos responderão a essas perguntas da mesma forma, mas para a maioria dos críticos textuais a resposta é: NÃO!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

As Tribos de Israel:

A Terra de Israel (Eretz Yisrael) é o berço do povo judeu. Uma parte importante da longa história do país se passou lá, com dois mil anos sendo registrados na Bíblia; lá, sua identidade cultural, religiosa e nacional foi formada, e sua presença física foi mantida através dos séculos, mesmo após a maioria do povo ter sido exilada. Durante o longo período de dispersão, o povo judeu nunca cortou nem esqueceu sua conexão com a Terra. Após o estabelecimento do Estado de Israel em 1948, a independência judaica, perdida dois mil anos antes, foi renovada.
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As Doze Tribos de Israel

A história judaica começou há cerca de quatro mil anos (cerca do século XVII AEC) com os patriarcas: Abraão, seu filho Isaac e seu neto Jacó. Documentos encontrados na Mesopotâmia, datados de 2000 a 1500 AEC, confirmam aspectos de sua vida nômade, tal como descrito na Bíblia. O livro do Gênesis relata que Abraão foi chamado de Ur dos Caldeus para Canaã, para formar um povo com a crença no Deus Único. Quando a terra de Canaã foi assolada pela fome, Jacó (Israel), seus 12 filhos e suas famílias foram para o Egito, onde seus descendentes foram escravizados. 
Depois de 400 anos de escravidão, os israelitas foram libertos por Moisés, que, segundo a narrativa bíblica, foi escolhido por Deus para tirar seu povo do Egito e levá-los novamente à Terra de Israel, prometida a seus antepassados (cerca dos séculos XIII e XII AEC). Durante 40 anos, eles percorreram o deserto do Sinai, onde formaram uma nação e receberam a Torá (Pentateuco), que incluía os Dez Mandamentos e deu forma e conteúdo à fé monoteísta. O êxodo do Egito (cerca de 1300 AEC) deixou uma marca indelével na memória nacional do povo judeu e tornou-se um símbolo universal de liberdade e independência. Todo ano, os judeus celebram a Pessach (Páscoa), o Shavuot (Pentecostes) e o Sucot (Festa dos Tabernáculos), relembrando os eventos ocorridos naquela época. 

Durante os dois séculos seguintes, os israelitas conquistaram a maioria da Terra de Israel e tornaram-se agricultores e artesãos; em seguida, veio a consolidação econômica e social. Durante períodos alternados de paz e guerra, o povo se uniu, representado por líderes conhecidos como juízes, escolhidos por suas capacidades políticas, militares e de liderança. A fraqueza inerente a essa organização tribal diante da ameaça representada pelos filisteus (povo marítimo da Ásia Menor estabelecido na costa do Mediterrâneo) gerou a necessidade de um governante permanente para unir as tribos, com sucessão por herança.  


O que houve com as Tribos de Israel?

Um dos elementos que mais intrigam os estudiosos, é o destino das Tribos de Israel, sobretudo as 10 tribos do norte, cuja referência cessa completamente após as invasões.

Tribos que se perderam:

As conquistas assírias no século VIII AEC abriram caminho para a conquista do reino do norte de Israel. A queda de Samaria significou o fim do estado israelense. Seu povo, ou aqueles que sobreviveram, foram deportados para a Assíria e redistribuídos por todo seu território. Atualmente, as 10 tribos do norte desapareceram por completo do relato bíblico. O provável é que qualquer traço de união tribal tenha desfalecido com a fragmentação das comunidades israelitas, e que os hebreus que sobreviveram ao processo tenham se unido a estrangeiros e abandonado suas tradições.

A tribo que sobreviveu:

Apesar da queda de Jerusalém, menos de 2 séculos depois, os descendentes de Judá, ao serem levados ao exílio no reino da Babilônia, mantiveram fortes laços culturais entre si. É possível que tivessem mantido esta união graças às profecias de Jeremias, que previu que o exílio duraria 70 anos, e que o povo seria liberto e mandado de volta a Jerusalém ao final deste período; a fé conjunta na realização da profecia teria mantido a tradição da tribo de Judá intacta, se não fortalecida. É no período de exílio que surge pela primeira vez de maneira consistente o termo judeu, se referindo a todos os membros da tribo de Judá.

Passado o tempo previsto por Jeremias, Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia e enviou os judeus de volta à Terra de Israel, designando para eles a província de Yehud, de maneira geral, o mesmo território do antigo reino de Judá. Os judeus ali habitaram até o século II EC. 

Reinos Divididos

Entre o fim do exílio babilônico e a diáspora, os judeus nutriram um forte senso de união e resistência a dominação estrangeira, tão forte que, mesmo após sua expulsão definitiva da Terra de Israel pelos romanos, os judeus mantiveram laços entre as distantes comunidades formadas por toda Ásia, norte da África e Europa, verdadeiras redes através das quais sobreviveram suas tradições. Durante este período, o termo “judeu” significando um seguidor da religião judaica (para a época), suplantou o significado tribal do termo, e muitos estrangeiros de origem não semita se declaravam judeus. De toda forma, através dos judeus e do judaísmo, a tradição da tribo de Judá sobreviveu até hoje.  

sábado, 1 de agosto de 2015

Caminhando no Cristianismo:

O cristianismo é, em sua raiz, um culto de personalidade. A sua mensagem central é a história de uma pessoa, Jesus: um aspecto de Deus, mas que também é um ser humano, definido no tempo histórico.
Existem dois mil anos de histórias cristãs, o que pode parecer uma tarefa difícil para historiadores. No entanto, dois milênios não são muito tempo. O cristianismo precisa ser visto como uma religião nova, muito mais nova do que, por exemplo, o taoismo, budismo, hinduísmo ou sua própria “mãe” — o judaísmo.
Após a vida de Jesus, a história do cristianismo só continuou unificada por aproximadamente três séculos antes de começar a divergir em famílias de línguas: falantes de latim, grego e de línguas orientais (o principal deles sendo, é claro, o próprio Jesus Cristo).

Mosaico da imagem de Jesus


Trajetórias diferentes:

Uma divisão surgiu porque uma seção do cristianismo, a igreja no império romano, estava recebendo patrocínio e cada vez mais apoio de Constantino (que sucedeu aos imperadores que tinham anteriormente perseguido a religião). Os cristãos ao leste desse império não receberam suporte.
Era esperado que o cristianismo do Oriente Médio se tornasse dominante, já que esta região era a pátria de Jesus e a língua falada por aqueles cristãos siríacos ainda era parecida com o aramaico da época de Jesus.
Quando um imperador romano procurou impor uma solução na Calcedônia para um problema teológico difícil — como falar das naturezas divina e humana de Jesus — a maioria dos sírios recusou a sua solução. Os cristãos siríacos realizaram feitos notáveis de missão no nordeste da África, Índia e sudeste da Ásia, embora a sua história tenha sido alterada por um novo monoteísmo da mesma pátria semita, o islamismo. Ainda assim, no século VIII da era cristã, a grande cidade de Bagdá teria sido uma capital provável para o cristianismo do que Roma. O surgimento do islamismo é a principal razão pela qual a história cristã se voltou para outra direção.


Dois símbolos do cristianismo


História moderna:

A partir de 1700, as três histórias convergem mais uma vez, quando o mundo se uniu pela expansão dos impérios cristãos. Apesar de sua atual variedade, os cristãos modernos estão mais próximos do que estavam antes, nas primeiras gerações do Oriente Médio no século I.
Paralelamente a essas narrativas, está a história confusa e muitas vezes trágica das relações entre cristianismo, judaísmo e também o islamismo. Durante a maioria de sua existência, o cristianismo tem sido a religião mundial mais intolerante, esforçando-se ao máximo para eliminar todas as concorrentes.

Houve enormes consequências quando os monarcas dos séculos XV e XVI da Península Ibérica (Espanha e Portugal) reinventaram sua sociedade multirreligiosa em um monopólio cristão e depois exportaram essa forma de crença para outras partes do mundo. A destruição do judaísmo e do islamismo espanhóis depois de 1492 teve um papel importante no desenvolvimento de novas formas de cristianismo, que não só desafiou boa parte do pacote de ideias antigas da Igreja, mas também promoveu a mentalidade que levou, nos séculos XVII e XVIII, ao Iluminismo no ocidente.
O cristianismo era um ramo marginal do judaísmo, e Jesus não deixou nenhuma obra escrita conhecida. Jesus parece ter afirmado que a trombeta soaria para o fim dos tempos muito em breve, e em uma grande ruptura com a cultura em torno dele, disse a seus seguidores para deixarem os mortos sepultarem os seus próprios mortos.


Figuras que tipificam o islamismo, judaísmo e cristianismo

Tais seguidores sobreviveram a uma grande crise de confiança no final do primeiro século, quando os Últimos Dias não chegaram. O cristianismo emergiu disso como uma instituição muito diferente do movimento “criado” por Jesus, ou até mesmo por seu primeiro grande apóstolo, Paulo.
Embora os historiadores modernos não tenham nenhuma capacidade especial para serem árbitros da verdade ou de religiões, eles ainda têm um dever moral.
Devem procurar promover a sanidade e conter a retórica que gera o fanatismo. A crença religiosa pode estar muito próxima da loucura. Essa mesma crença levou os seres humanos a atos de insanidade criminosa, bem como às maiores conquistas de bondade, criatividade e generosidade.  

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Exorcismo:

Exorcismo é o ato de expulsar ou expelir demônios, ou espíritos malignos, geralmente de pessoas; podendo existir casos envolvendo lugares ou objetos. Segundo a visão religiosa, o ritual de exorcismo só ocorre quando constatada a possessão demoníaca (pelo diabo ou seus anjos). Esse ritual é praticado por padres católicos, há relatos de que outras culturas também realizavam rituais semelhantes a esse. Atualmente, a Igreja Católica Apostólica Romana ainda acredita em possessões diabólicas e seus sacerdotes realizam o “exorcismo real”, um ritual de 27 páginas onde se utiliza água-benta, preces e relíquias (ou símbolos cristãos) visando expulsar demônios ou espíritos malignos. Existem igrejas protestantes que também acreditam em possessão demoníaca e praticam um ritual de expulsão desses espíritos, porém, diferente do catolicismo, o protestantismo executa a expulsão unicamente pelo uso do nome de Jesus e de palavras proféticas. Na Igreja Católica, são praticados três tipos de exorcismo:
• Exorcismo batismal: é o ato de abençoar a criança antes do batismo visando purificá-la do mal.
• Exorcismo simples: é o ato de abençoar um objeto ou lugar para acabar com toda e qualquer influência maligna.
• Exorcismo real: é o ato de expulsar um demônio e/ou demônios de uma pessoa.

Fotos REAIS de Emely Rose — Fato que deu origem ao filme:
O Exorcismo de Emily Rose. 

Quando chegam à Igreja relatos de que existe um possível caso de possessão diabólica, começa o processo de investigação. Procedimento necessário para esclarecer se a pessoa sofre de algum problema de saúde mental, pois todas as hipóteses humanas são investigadas. Estabelecido que se trata realmente de um caso de possessão verdadeira, a Igreja (Católica Romana) indica um exorcista, esse normalmente é o mesmo padre que realizou a investigação. Durante o ritual, o padre exorcista deve se confessar ou, pelo menos, obter um ato de contrição — arrependimento ou dor profunda por magoar a Deus. Ele veste sua sobrepeliz e a estola roxa, faz o sinal da cruz em si e nos demais envolvidos no ritual, depois joga água-benta em todos e no recinto, isso permite preparar o exorcista, as pessoas presentes e o local. Tudo sido feito corretamente, o ritual tem início com a chamada Ladainha dos Santos, em que o exorcista recita a ladainha e todos os presentes devem responder com fé e convicção.
Além da Ladainha dos Santos, o padre lê o salmo 53, dá os comandos ao espírito presente no possuído. Todos leem todas as lições do evangelho e a parte mais importante do exorcismo, que é quando o padre lê as palavras de expulsão do demônio. Cantam o Cântico de Nossa Senhora (Lucas 1: 46–55) e falam da Oração após a libertação.

Qualquer ritual igual ou semelhante ao do exorcismo deve ser praticado unicamente por pessoas capacitadas, além de ser necessária uma investigação a fim de eliminar todas as possibilidades terrenas para usar os recursos religiosos. É importante lembrar que já houve casos de morte durante a tentativa de exorcismo católico e protestante. Exemplo: O exorcismo na moça de nome Emily Rose (fotos acima).